Um dia no meio da semana
- Gostaria de deixar o meu filme no acervo.
Ela chamou um garoto com jeito de estagiário e pediu que ele me levasse ao outro prédio. Eu e o João seguimos lado a lado e enquanto a gente subia pelo caminho eu percebia nele a soltura que só tem quem está gostando do trabalho que faz. Ele me deixou na frente de um galpão grande, de porta vermelho vivo, e tchau. Assim que eu coloquei os pés naquele novo ambiente, o cheiro peculiar da química que conserva os filmes me levou até os meus primeiros anos de cinema, quando eu manipulava os negativos de 35mm com luvas brancas de algodão, para não riscá-los, exatamente como estava fazendo aquele homem bonito: girar a manivela na enroladeira num ritmo cadenciado, produzindo um rolo perfeito, que traduz o respeito pelas dezenas de profissionais que se dedicaram para realizar aquela obra cara, querendo contar uma história para outros.
O lugar era espaçoso e bonito, cheio de pessoas em ocupações ligadas ao cinema, conversando, ou concentradas em suas tarefas. Senti vontade de ficar ali, feliz para sempre. Deixei o meu curta, precioso, nas mãos de uma funcionária jovem e moderna. Preenchi uma ficha, assinei e fui, segura de que o meu filme será bem cuidado. Mas eu não queria ir embora. Desci permeando o terreno irregular, que foi matadouro, onde teve até campinho de futebol e parei numa murada que resistiu à reforma, olhando os prédios que compõem de maneira tão singular aquele conjunto que se chama Cinemateca. Andei até o jardim, onde tenho um pé de goiaba favorito, e me deitei debaixo dela, sobre a grama. E, naquela tarde de um dia no meio da semana, me entreguei, agradecida, ao abraço morno do sol de inverno, sem pensar em nada.




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